Voa, Azulão !
- Luiz Henrique Berger

- 17 de out. de 2021
- 5 min de leitura

Terminada qualquer rodada do Brasileiro é normal começarem a pipocar de todo o lado mensagens em grupos de whats de amigos com flautas, memes e comentários sobre o desempenho dos nossos times de Porto Alegre.
Na quarta, depois dos jogos da dupla, as mensagens começaram a chegar, mas não eram para falar dos resultados. “Pessoal, tenho uma informação terrível, morreu o Azulão”, foi o que recebi, compartilhado pelo colega da Repórter, Zalmir Soares. Em seguida, outras foram chegando e a comoção só aumentava. E, junto ao impacto da notícia, a tristeza foi se espalhando.
Imagino a dureza para os amigos do Quarta Show, o grupo que conviveu os últimos momentos com o Azulão. E os de outro grupo, do Ouro Verde das sextas-feiras sagradas, que combinavam com ele a programação do próximo encontro. Amigos ouvem e mostram para outros os últimos áudios recebidos dele, empenhado na organização do jogo festivo em comemoração aos 78 anos do Gaúcho. Seria Gaúcho e Ouro Verde. Seria, pois está cancelado. Adiada também a inauguração da iluminação do Estádio Cláudio Goi, em Rincão dos Goi, dizia desolado Léo Goi no velório.
A quinta-feira para esse enorme grupo de amigos não foi das mais fáceis. Pelo contrário. Se despedir do Azulão levou a um choro coletivo de uma legião de amigos.
E é sobre isso que quero falar. Da amizade e do carisma do Azulão, construída nos campos de futebol e o respeito adquirido pela retidão com que trabalhou por 37 anos na Rádio Progresso.
Como atleta amador, sempre joguei contra o Azulão. Nunca nos desentendemos. Fomos colegas no início dos anos 90 na minha rápida passagem pela Progresso. Ele adorava organizar jogos com equipes de cidades vizinhas, que convidavam o time da emissora para jogos festivos, de colocação de faixas (fotos abaixo, em Ajuricaba, na Praça Central, e em Esquina Bonsucesso, Catuípe), o que depois, se transformou nesse projeto de sucesso que é a Copa dos Campeões.


Mas falando em jogar contra, confesso que gostava muito pouco de enfrentar o Azulão. Normalmente, ele levava vantagem. Foi assim em torneios no colégio, em decisão por pênaltis em que não peguei um sequer, naqueles formatos em que o time escolhe um batedor. Errei todos os cantos e o Azulão saiu vencedor.
Com a camisa do Juventude de Rincão dos Goi, então, nem se fala. Confesso que não guardei na memória muitas partidas jogadas nos campos do interior, mas uma está marcada e envolve o Azulão.
Não lembro onde foi. Era um campo numa região alta do nosso enorme interior, com arvoredo ao redor, longe do asfalto. Chegamos lá levados pelo Chico, na Kombi verde do Mauá. Muita gente assistindo. Mauá e Juventude faziam o jogo de fundo, o principal da rodada. Um clássico, informo aos que não viveram essa época. A partida se arrastava para o final com o placar que é o sonho dos goleiros, 0x0, quando o Juventude saiu em contra ataque pela direita. A bola foi lançada forte, na diagonal e em profundidade para o Azulão.
Antes que ele dominasse, livre, no bico da grande área, do lado esquerdo, dei uns dois passos, saindo da pequena área para fechar o ângulo em caso de um chute ou tentar abafar a bola quando Azulão estivesse em condições de concluir, como havia aprendido no livro do Sepp Mayer, que tenho guardado até hoje. Mas o que nem o goleiro da seleção alemã de 74 e muito menos eu imaginávamos é que não teria um atacante dominando a bola que chegava com velocidade.
Azulão, talvez um passo dentro da área, bem no bico do lado esquerdo, não dominou. Tocou de cabeça, de primeira, me encobrindo e passando em velocidade na minha frente, perseguido pelos companheiros de time que só queriam abraçá-lo.
Nem preciso dizer a reação de Geraldão, o zagueiro pela direita e dono do Mauá, ao buscar a bola na rede.
Crescemos jogando bola. Crescemos amigos. Também sou de 1965. Lembro do Azulão, chegando na Montanha, todo tímido, para treinar na Escolinha do Gaúcho. No sábado, conversando com Jouberto Matte, ele lembrou que o Azulão ficava à espreita, no muro do lado oposto à entrada principal da Montanha, bem próximo à casa dele, que era do outro lado da rua, esperando o Seu Bindé chegar para só então pular o muro e vir para fazer o que mais adorava, correr atrás da bola no final do dia.
Recebeu como nome de batismo Vanderlei Paulo Bombardieri, mas foi lá, no Gaúcho, que ganhou o apelido. Veio certo dia de calção, camiseta e meias azuis. Não demorou para a turma “batizá-lo” de Azulão.
Estava muito animado na última vez que nos encontramos. Foi recentemente, dia 27 de setembro, no Sesc, onde o nosso amigo em comum, Ronaldo Soares, chamou para o lançamento do projeto Cinema Ijuí. Azulão estava lá porque um dos locais a receber uma exibição de filme era o Rincão dos Goi, mas também atuou como “repórter”, fazendo fotos dos organizadores. No palco do Sesc, conversamos. Para variar sobre o Ouro Verde e a turma das sextas-feiras. Me disse – vai lá, aparece pra rever a gurizada! Mas contou mais. Falou da alegria de ter se mudado para Rincão dos Goi, citou que a querida esposa Sandra também estava muito contente. E ficamos de nos ver em breve.
Vanderlei, na Progresso, não chegou a ser locutor, um caminho que muitos seguem, mesmo começando em outros setores. Mas usava o microfone com impressionante naturalidade, com vocabulário vasto, sabendo se expressar em público, uma tarefa que também gostava muito.
Era organizado, ousado e empreendedor, tanto que deixa uma marca como presidente do Ouro Verde lembrada pelos componentes atuais do grupo das sextas feiras, que recordavam, repetidamente na triste quinta-feira, do espírito empreendedor do Azulão e as transformações feitas no Verdão do Bairro Assis Brasil.
Em março do ano passado, recebi uma mensagem do Azulão. Eu não fazia mais parte do grupo das sextas-feiras do Ouro Verde, mas ele me incluiu nos amigos do Bertil, que naquele dia se despedia da querida esposa Marli.
Azulão organizou a homenagem à família Hamarstronn no dia mais triste da vida deles. Em plena pandemia, o velório era restrito e Azulão combinou com a turma para que nos posicionássemos em frente à capela, na rua, fechando a Avenida Getúlio Vargas por alguns minutos para que Bertil recebesse um abraço coletivo solidário. E assim foi. Ao sair da capela, Bertil foi na direção de Azulão, e o abraçou demoradamente.
Na quinta, na despedida, no cemitério em Rincão dos Goi, foi a vez de Bertil, junto com os amigos do Ouro Verde, se manifestar e organizar a difícil homenagem de despedida desse querido amigo. Porque o Azulão se foi. Muito, muito cedo, mas deixando na memória de centenas de amigos ensinamentos sobre amizade, alegria, família, trabalho e como o futebol nos faz amigos.
Um beijo para a Sandra, para a Claudielle, para o Vanderson e para o Vitor. Um especial para a Dona Filomena e para o Seu Alvino e todos que choram a perda do nosso querido Azulão.
Voa, Azulão ! Porque você agora está no céu, na Paz do Senhor !































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