A melhor profissão do mundo
- Luiz Henrique Berger

- há 10 horas
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Por Luiz Henrique Berger

Lamento o fechamento do Curso de Jornalismo da Unijuí, onde tive uma formação que me permitiu exercer diversas atividades jornalísticas e onde fui feliz e voltaria a fazer tudo outra vez. Entendo perfeitamente esta decisão do reitor Dieter Siedemberg, de que as condições no mundo do trabalho mudaram muito de quando o curso foi proposto, aliado à baixa procura, crise financeira e transformação digital.
Acompanho o mercado e vejo que há centenas de jornalistas super talentosos e experientes desempregados neste momento, e outros tantos menos experientes, menos talentosos. Ainda há trabalho para jornalista, mas a vaga está ocupada. Leio que a tendência das empresas é fechar essa vaga ou trocar por alguém mais barato ou IA, porque a receita só diminui a cada ano que passa. A publicidade em veículo está mixando e o jornalismo vai junto.
Grandes e respeitados jornalistas viraram assessores de imprensa. Agora a má notícia: as assessorias de imprensa também estão sendo reduzidas, e isso só vai piorar.
Não sei o que o mercado de trabalho vai precisar em 2036, mas não é preciso ser muito esperto para saber bem várias coisas que o mercado não vai precisar. Dentista vai precisar. Médico, Gestor Ambiental. Programador. Fisioterapeuta. Cuidador de idoso. Instalador de painel solar. E vendedor.
Escrevo com carinho aos jovens que escolheram a Unijuí no curso de Jornalismo, aos que se formaram e seguem na atividade e aos que não seguiram. Integrei a primeira turma formada pela Unijuí, ao lado de outras cinco colegas. Com uma certa preocupação, porque não faço ideia de como uma sociedade possa sobreviver sem jornalismo. Com dor no coração, inclusive porque fui felicíssimo fazendo o que fiz.
“Eu era um colono que chegou à Universidade e aqui me ensinaram a pensar”. Cândido Grybowski
Lá por 2004, entrevistei após uma palestra no Salão de Atos Argemiro Jacob Brum, o sociólogo Cândido Grybowski. Ele havia se emocionado, chorado, ao citar o professor Mário Osório Marques, minutos antes em sua fala. Perguntei a ele o porquê da emoção. Respondeu – Pois foi aqui, com ele, que aprendi a pensar. “Eu era um colono que chegou à Universidade e aqui me ensinaram a pensar”.
Ter ido à Universidade, ter convivido nesse ambiente acadêmico, fez grande diferença. Tive “a sorte” ao ingressar na primeira turma, de ser aluno de professores como Virgínia Fonseca, Nara Magalhães, Celestino Perin e ele. Sim, ele, Larry Antônio Wizniewski.

Obrigado, Larry, por abrir as portas do meu pensamento, me ensinar a questionar e aprender.
Foi no Curso de Jornalismo que me disseram para não me contentar com qualquer resultado, a investigar de forma mais apurada, quer dizer, não ser um mero reprodutor de notícias, um compilador de fatos. Foi nas salas de aula cercadas de frondosas árvores do Campus da Unijuí que me alertaram para pesquisar, questionar, criar e intervir no sentido de gerar questões interessantes e informações pertinentes. Tive o suporte de professores experientes para receber esse feedback.
Aprendi a respeito da responsabilidade social do jornalista e o rigor ético, como lidar com fontes, anonimato e o respeito à verdade factual. Também a encontrar o "gancho" da notícia, adaptando textos para diferentes plataformas (impresso, web, redes sociais),
O início na profissão não foi barbada, assim como não deve ter sido para você que lê esse texto. Já trabalhando na área, antes mesmo de concluir o curso, convivi com feras da comunicação local com quem aprendi muito, muito mesmo.

O ano era 1992. Dois anos de Jornalismo na Unisinos e a volta para casa, pois a notícia era de que a Unijuí ofereceria em breve o Curso de Jornalismo. Na Rádio Progresso, emoção total ao subir no elevador do Edifício Nelson Lucchese, onde já haviam trabalhado lendas como Moises Mendes e Heitor Schmidt (foto), Amaury Müller e Heitor Fernandes. No estúdio, ao levar uma notícia de última hora para o locutor oficial dos “noticiosos da hora cheia”, Delfino Coimbra disse que “se o Seu Ari Boger (ex-diretor da Rádio) estivesse vivo, eu jamais entraria naquele estúdio. Delfino nega, não gosta nem de ouvir a história, pois atravessamos esse Rio Grande viajando para jornadas esportivas e ele sabe o quanto o admiro.

Na Repórter, quatro anos depois, José Guedes nem levantou os olhos ao ser informado que estava ganhando um colega para o jornalismo da emissora, me recepcionando com a seguinte frase – Eu não vou ensinar ninguém. Não preciso contar que em uma semana dobrei o ranzinza, com quem aprendi muito de como fazer e também como não fazer jornalismo. Amizade e trabalho juntos até os últimos dias de vida dele.
Antes, ainda na Unisinos, onde comecei jornalismo em 1989, já tinha vaga de estagiário no jornal de São Leopoldo. A professora da disciplina de Redação I gostou do meu texto, indicando meu amigo e colega Marcelo Magalhães, com trajetória posterior na TVE e RBS e eu para o Jornal.
De lá para cá passaram-se quase 40 anos. Com todos os acidentes de percurso previsíveis e alguns inimagináveis, jamais me arrependi de ter me transformado em jornalista. Simplesmente porque não consigo me imaginar fazendo algo diferente.
Como todo mundo que brinca nas onze, fui repórter, redator, pauteiro, apresentador de programas e produtor. Acharam que eu poderia ser chefe. E me ferrei. Eu fui um repórter, mas na Unijui me viram primeiro como coordenador. Até aí, me defendia bem, mas quando a reitoria da época entendeu que eu era o indicado a assumir a direção de uma Mantida da Fidene, a Rádio Unijuí, me lasquei. Aceitei porque o salário melhoraria consideravelmente. Filhos ainda em casa, mulher trabalhando dois turnos e estudando no terceiro, não pensei duas vezes em melhorar o orçamento da casa. Avaliei mal.

É o capítulo Unijuí da minha vida, que me enche de orgulho. Sou um fracassado muito orgulhoso pelo que fiz na Unijuí. Aprovado em processo seletivo, em 2001, com a exigência do diploma, primeiro lugar, fazendo parte da primeira equipe da 106,9, que chega aos 25 anos, com importantes decisões a tomar, com uma capacidade elogiável de buscar alternativas para seguir sendo um farol no rádio regional, apesar de alguns poucos idiotas defenderem o caminho mais fácil para quem só olha orçamento ou nem isso sabe fazer.
Com um intervalo de cinco anos, trabalhei na Rádio Unijuí por 11 anos – oito e depois mais três. Acertei muitas vezes. Está cheio de gente boa no mercado que passou na minha mão, no bom sentido, sempre no bom sentido.
Hoje fico um tanto encabulado de ter orientado tantos jornalistas iniciantes. Eram estagiários, na maioria gurias, uma melhor que a outra: Ana Júlia, Janaíne, Juliana, Lara, Leslie, elas dominavam assuntos com muito mais profundidade que eu. Faziam perguntas em entrevistas que eu jamais faria. Cursavam Jornalismo na Unijuí. E ainda tinha João Anschau, o estagiário hour concurs. Jamais trabalhei com alguém como esse querido com quem mantenho contato até hoje.

Sei que o texto está sem lide, mas procurei também evitar nariz de cera. Se você não sabe o que são esses termos, você não fez jornalismo. Mas não há problema. Decidiram que não precisa mais diploma para a faculdade de Jornalismo. É só buscar o registro.































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